O dicionário da língua portuguesa fornece o significado de “magia”: “arte ou ciência oculta com que se pretende produzir, por meio de certos atos e palavras, e por interferência de espíritos, gênios e demônios, efeitos e fenômenos extraordinários, contrários às leis naturais; mágica, bruxaria, religião dos magos.”
Tornou-se costume corrente referir-se ao Natal descrito como algo “mágico”. A “magia do natal” foi expressão pronunciada inúmeras vezes pelo apresentador da chegada do papai noel passando por túnel iluminado para receber as chaves da cidade.
Consta nos evangelhos que “magos” vieram do oriente para visitar o menino nascido numa estrebaria. Naquele tempo “mago” era o estudioso da astronomia, e ao estudar as estrelas acreditava encontrar nelas determinados sinais. Os magos do oriente deixaram-se guiar por uma estrela que estudavam e monitoravam. No entanto, mais importante que sua sabedoria era sua humildade de identificar que um sinal posto no firmamento dizia alguma coisa que a sua vã filosofia não percebia. Literalmente, eles se converteram. Isto é, mudaram seus pontoas de vistas sobre o que estava acontecendo.
Nas encenações natalinas, hoje, ocorre o contrário. Empresas de enfeites festivos decidem qual será o sinal que deve ser seguido para entrar no “clima do natal”. O sinal é a “magia” dos enfeites. A “bruxaria” que tomou conta das ruas muda a mente das pessoas. Deixam de descobrir o que significa a escura “Gruta de Belém”, e se deixam hipnotizar pelo fausto do túnel luminoso do centro de cidade.
Papa Francisco, encurvado e escondendo o rosto com a mão esquerda, chora esta inversão dizendo: “estamos próximos ao Natal; teremos luzes, festas, árvores luminosas, e presépio. Tudo falso. O mundo continua fazendo guerras. O mundo não entendeu o caminho da paz”. Os reis magos do oriente buscaram o caminho da paz. Herodes afiou a espada e decepou as cabeças dos meninos inocentes. Os poderosos de hoje fazem guerra e falam da “magia do natal”.
Jesus de Nazaré, antes de ir a Jerusalém onde se entreverou com os sacerdotes do templo, por eles profanado e convertido em covil de ladrões, também, como o papa, chorou a inversão do caminho da paz. O lamento de Jesus de Nazaré foi posto com uma pergunta inquietadora: “A quem vou comparar esta geração.? Disse que parecia com crianças sentadas na praça tocando flautas e ninguém lhes dava bola. Nem crianças que choravam comoviam os sacerdotes do templo. Esta geração foi chamada de raça de víboras.
Talvez não haja encantamento mais sublime do que ouvir coral de crianças cantando canções natalinas. Canções que brotaram do coração cultural de pequenas aldeias perdidas nas frias montanhas da Europa, tempo em que os abetos se cobrem de neve. Singelas e encantadores elas se espalharam pelo mundo inteiro. Mas, por aqui estão sendo esquecidas. Os “ó, ó, ó” do venerando palhaço do falso natal despertam sensações frenéticas.
A maldição das “bruxas” pegou. “Espíritos, gênios e demônios” produziram efeitos extraordinários, mudaram a cabeça da atual geração que ensina às crianças que o Natal que deveria ser de Jesus de Nazaré acabou sendo a festa do papai noel. Naquele tempo, o templo de Jerusalém foi convertido em covil de ladrões. Hoje, a Gruta de Belém virou praça comercial.
Era véspera de natal. Estava numa cidade turística. Sentadas na minúscula praça, crianças índias acocoradas ao redor da mãe, estendiam a mão e pediam qualquer ajuda. Casal jovem, sendo abordado pelas mãozinhas estendias, debochou, dizendo:” Voltem pro mato, vagabundos”. Jesus de Nazaré viu, em alguma praça, crianças tocando flauta e ninguém lhes deu bola. O que está acontecendo? Vamos deixar as “bruxas” ocuparem os últimos redutos que ainda restam na alma dos cristãos? Vamos continuar celebrando o “falso natal”? Esta civilização, diz o papa, está moribunda. Perdeu o juízo. Já não consegue mais distinguir entre o sinal que guiou os reis magos e os sinais emitidos pelo mercado na direção do natal falso, feito de magia.
Fui participar de missa do segundo domingo do advento. O celebrante estava visivelmente perturbado. Passou a missa inteira de cabeça baixa. Ao sair, indaguei para um confidente do padre a razão de seu mau humor. Disse-me que ele enfrenta forte oposição de grupo que prefere não falar sobre “natal dos pobres”. Deve-se dar esmola, mas não se pode questionar as causas da miséria. Os pastores disseram” vamos a Belém!” Os turistas disseram “voltem pro mato seus vagabundos”.
