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O atual presidente da Libéria, George Weah, já foi jogador profissional de futebol e o único africano a conquistar o título de melhor jogador do mundo pela Fifa

Publicado em 17/12/2020, última alteração em: 18/12/2020 08:49.

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11 - Girassol

O continente africano é, indiscutivelmente, um dos maiores celeiros de jogadores do planeta. A quantidade de jogadores excelentes que possuem nacionalidade africana ou descendem do território é notória, visto que todos os clubes de elite que disputam os campeonatos mais acirrados do mundo possuem jogadores africanos. Como rápidos exemplos, podemos listar os últimos três times que venceram a Liga dos Campeões da UEFA: Real Madrid (Espanha), Liverpool (Inglaterra) e Bayern de Munique (Alemanha) com protagonismo dos jogadores da África.

Contudo, não é recente o sucesso dos jogadores que provêm do continente em questão. Nomes como Didier Drogba, Samuel Eto’o, Roger Milla, Abedi Pele, Yaya Touré, Michael Essien e tantos outros, alcançaram a glória dentro e fora de campo, virando personalidades que, além de levar alegria para um povo extremamente injustiçado e que sofre as consequências do colonialismo até os dias de hoje, representam suas nações com cargos dentro de instituições mundiais, como a ONU, Unesco, Unicef e outras. Nesta edição (e última), o TBT do Futebol vai recordar a história daquele que é considerado por muitos como o melhor africano de todos os tempos no futebol e que, nos dias atuais, luta pelas melhores condições de seu povo presidindo a República da Libéria.  

 

O Rei Leão dos gramados  

A história da nação liberiana é singular no mundo. Um dos únicos países do continente africano que não possuem raízes diretas de colonização europeia, pois foi fundada a partir de um movimento de escravos libertos que vieram dos Estados Unidos entre 1821 e 1822 rumo à África Subsaariana. Foi nessa região que nasceu o melhor jogador da história da nação e político comprometido em possibilitar melhores condições de vida para seu povo. George Tawlon Manneh Oppong Ousman Weah, ou somente George Weah, nasceu na capital Monróvia, no dia 1 de outubro de 1966, na região periférica de Clara Town. O pequeno George, filho de pais operários, foi criado pela avó enquanto dividia a atenção entre os estudos e o futebol. Os seus primeiros pontapés foram em um clube da cidade chamado Young Survivors Clareton (Pequenos sobreviventes de Clara Town), o time era uma válvula de escape para os jovens fugirem das guerras civis que foram traçadas ao longo dos anos no país. Weah continuou sua trajetória no futebol em clubes locais como o Bongrange Company, o Mighty Barolle e o Invincible Eleven, tudo isso dividindo o tempo com o emprego em uma companhia de telecomunicações na Libéria. Atuando muito bem no Invicible Eleven, passou a despertar interesse de clubes de países vizinhos, como o África Sports, da Costa do Marfim e Tonnerre Yaoundé, de Camarões, onde recebeu o apelido de Oppong (super). No país de colonização francesa, teve a oportunidade de ser visto por alguns olheiros do treinador Arsène Wenger, comandante do AS Mônaco, da França, que viu potencial no atleta para ser lapidado e transformado em um grande jogador. Em 1988, aos 22 anos, George chega ao clube francês por onde ficaria por mais quatro anos, ganhando relevância por boas atuações que premiaram uma Copa da França, na temporada 1990-91, porém foi no aspirante Paris Saint-Germain que, ao lado de craques como Raí, Lama, Le Guen e companhia, o craque liberiano conseguiu encontrar um futebol de alto escalão, que chamasse atenção dos gigantes da Europa. Permaneceu no time da Cidade Luz durante três temporadas inteiras, conquistando uma Ligue 1 e duas Copas da França, ficando eternizado na história do PSG na primeira geração de ouro que o clube montou. Em 1995 chegou ao ápice de sua carreira, sendo transferido para o poderoso Milan, da Itália, onde seu futebol foi mundialmente reconhecido e, em solo italiano, foi batizado de “O Rei Leão”.

Fazendo jus às duas capitais da moda, o futebol jogado por Weah era de primeira linha. O presidente do Milan na época, o magnata Silvio Berlusconi, foi um grande admirador de suas habilidades e viu a necessidade de incorporar o craque ao plantel da rossonera. O gigante da Bota via seu ataque desfalcado em função da aposentadoria de Marco Van Basten, em função de lesões sérias no tornozelo, o que fazia com que a contratação de Weah caísse como uma luva, como um achado. E deu certo. Já no primeiro ano no clube, Weah, ao lado de jogadores como Roberto Baggio, Paolo Maldini, Patrick Vieira, entre outros, conquistaram o título do Campeonato Italiano com atuações magníficas e protagonismo por parte do Rei Leão. Marcou 14 gols em 32 jogos na temporada entre liga nacional e competições europeias, o que lhe rendeu a inédita honraria de ser nomeado o melhor jogador do mundo tanto pela FIFA como pela France Football com o Ballon D’or em 1995, feito máximo na carreira de um jogador de futebol profissional, além de entrar para os livros dos feitos gloriosos como único africanoeleito melhor do mundo (Zinedine Zidane possui origem argelina, porém declarou dupla nacionalidade na França, país que optou defender no futebol). Após 1995, o atacante decaiu de rendimento fazendo com que fosse, aos poucos, perdendo espaço. Na temporada 1999-00 foi transferido para o Chelsea da Inglaterra, tendo passagem curta de uma temporada, em seguida, brevemente jogou no Manchester City retornado para a França na temporada 2000-01, vestindo as cores do Olympique de Marseille. O fim de sua trajetória como jogador de futebol veio em 2002, quando atuava pelo Al-Jazira dos Emirados Árabes, após disputar sua última Copa das Nações Africanas.

Pelo País

Weah é tido como um herói na Libéria e um ídolo na África, não só pelo sucesso como futebolista, mas também como mais uma pessoa que superou as dificuldades impostas e venceu na vida. Vestindo as cores da seleção, dentro de campo, o Rei Leão nunca teve a oportunidade de disputar uma Copa do Mundo, assim como diversos craques que brilharam em seus clubes, porém não conseguiram brilhar no maior dos palcos (Giggs e Di Stéfano são bons exemplos). Além de ídolo, George era capitão, mentor e líder das Águias Africanas, como é conhecida a esquadra liberiana. Fez sua estreia em janeiro de 1987 diante da Nigéria na Copa das Nações da África Ocidental que, naquela ocasião, conquistou o vice-campeonato perdendo para a Gana na final.

Em toda a história, o país conseguiu apenas duas classificações para disputar o Campeonato Africano das Nações em 1996 e 2002. No não de 1996 veio a inédita classificação, porém, os recursos eram escassos e a Associação Liberiana de Futebol não tinha condições de bancar os gastos, logo, George custeou a participação da equipe com dinheiro de seu próprio bolso em gesto que foi reconhecido em todo o mundo, reafirmando o amor pela sua nação.

 Em 2001, ainda atuando como jogador na França, Weah assumiu o comandou da sua seleção como treinador com o objetivo de alcançar o maior dos feitos: classificar a Libéria para a Copa do Mundo de 2002 e disputar o Campeonato Africano das Nações.  Na ocasião, a seleção liberiana conquistou dois empates e uma derrota, sendo desclassificada na fase de grupos, assim como em 1996. Já pelas eliminatórias, não conseguiu a classificação para o mundial, o que culminou no decreto de sua aposentadoria.

Contudo, os feitos de Weah e sua nação não se resumem ao seu desempenho exclusivamente nos gramados. O jogador sempre esteve engajado com causas humanistas além de ser um ativista em prol dos direitos das crianças. Ajudou a fundar instituições que acolhiam crianças vítimas dos reflexos e consequências das duas guerras civis que desolaram o país tanto economicamente como socialmente. Foi o idealizador do clube Juniors Professional, instituição voltada a ajudar aos pequenos a fugirem da pobreza, com incentivo na educação e no esporte, além de ser nomeado embaixador da boa vontade pela UNICEF. Após assistir a duas guerras civis em seu país, Weah tinha vontade de provocar a mudança no cenário. Depois de pendurar as chuteiras, decidiu entrar para a política e, em 2005, concorreu à presidência da República da Libéria. Venceu no primeiro turno, mas foi derrotado no segundo pela líder do Partido da Unidade, Ellen Johnson-Sirleaf, a primeira mulher eleita de forma democrática em um país africano. Na ocasião, existiram suspeitas de fraude eleitoral, fazendo com que Weah entrasse com recurso no Supremo Tribunal liberiano, porém a suspeita não foi confirmada. Mesmo com a derrota, George não desistiu da vida política. Em 2014 foi eleito senador de Montserrado com 78% dos votos. A boa gestão como parlamentar lhe proporcionar, mais uma vez, participar da corrida presidencial da Libéria em 2017 com o êxito na nomeação de Chefe de Estado.

A missão do Rei Leão não é fácil. Em 2010, a organização não-governamental Transparência Internacional realizou uma pesquisa que apontou a Libéria como o país mais corrupto do mundo, devido ao histórico cultural e das guerras que devastaram a nação. Não obstante, em 2019, o Fundo Monetário Internacional (FMI), publicou uma lista com o Produto Interno Bruto (PIB) per capita de cada país, tendo em conta a paridade de poder de compra da sociedade que apontou a Libéria como o 12º país mais pobre do mundo, tendo a população vivendo, em média, com menos de R$ 6 diariamente. Atualmente, o Chefe de Estado tenta instaurar políticas de segurança nacional sobre violência de gênero, criando uma força tarefa específica para lidar com a questão além de realizar políticas públicas que buscam minar a desigualdade social e a pobreza gritante no país.

- Eu quero ver mudança no meu país, porque eu já vivi aqui antes e não é o único jeito que se pode viver. Todos têm direito a um hospital, a possivelmente enriquecer, ter acesso à educação. Essa luta pela igualdade é um dos motivos pelo qual estou na política, para tentar mudar o cenário atual - afirmou Weah em entrevista à Fifa.

Temos aí mais um exemplo de pessoa que venceu todas as adversidades impostas pelo sistema. Superação de pobreza, desigualdade social, econômica e cultura, preconceito racial. Tal observação é tida a partir de uma visão maior, porém, George é muito mais que uma pessoa que venceu na vida. George, assim como tantos outros jogadores, artistas, cantores, atores e escritores que nasceram nos seios da África, é considerado um herói. Weah dizia aos seus companheiros de seleção a seguinte frase: “eu digo sempre a eles que nós podemos dar muitas alegrias ao nosso povo”. É uma demonstração de amor, respeito e consideração pelas suas raízes. Por saber que é filho de um território que foi, e continua sendo explorado, maltratado, humilhado e desvalorizado. Como em qualquer âmbito da vida, não se pode generalizar tudo, porém, são diversas personalidades africanas que venceram na vida e possuem riquezas materiais que voltam seus olhares às suas origens e tentam fazer algo com seus próprios recursos, não ancorados em discursos comodistas de que é responsabilidade dos governantes e a balela de sempre. Os africanos são os maiores exemplos no mundo inteiro de pessoas que respeitam suas origens. Inclusive, paro e me pergunto: quando é que os “grandes brasileiros” irão usar suas posições e condições para fazer a diferença no Brasil também? Será que não somos capazes de aprender com nossos coirmãos a valorar a nossa terra, a nossa população, as nossas riquezas naturais? Até quando as pessoas que tem condições de mudar o quadro de desigualdade social que vivenciamos em nosso país irão se ancorar no discurso comodista? Enfim, espero que em breve surjam alguns Georges em nossa nação, que se indignem em saber que o nosso país carrega o fardo de ser um dos mais desiguais do mundo.

 

Top 10 gols da passagem de Weah pelo Milan, clube que foi eleito melhor do mundo:

 

 

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